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Saúde Emocional

Cicatrizes da Cirurgia Oncológica: Autoestima e Corpo

21 de setembro de 2026

Mulher se olhando no espelho após cirurgia oncológica, refletindo sobre mudanças no corpo

Tem gente que só percebe o tamanho do impacto de uma cicatriz na primeira vez em que troca de roupa na frente de outra pessoa depois da cirurgia. Não é sobre vaidade — é sobre reconhecer o próprio corpo, que mudou de um jeito que ninguém pediu, mesmo sabendo que a cirurgia foi necessária.

Cirurgias oncológicas, como mastectomia, ostomias ou remoções mais extensas, deixam marcas físicas que carregam também um peso emocional. Não é incomum sentir orgulho por ter passado pelo tratamento e, ao mesmo tempo, tristeza ou estranhamento ao olhar para o próprio corpo no espelho. Os dois sentimentos podem — e costumam — existir juntos.

Por que as cicatrizes mexem tanto com a autoestima

O corpo é parte importante de como cada pessoa se reconhece e se relaciona com o mundo. Estudos sobre o tema mostram que mudanças como mastectomia, cicatrizes visíveis e alterações de peso podem afetar diferentes dimensões da vida — da autoimagem à sexualidade e às relações sociais —, gerando emoções como medo, tristeza e, em alguns casos, vergonha. Reconhecer que esses sentimentos são uma resposta comum, e não um exagero pessoal, já ajuda a lidar com eles de um jeito mais gentil consigo mesmo.

Este texto tem finalidade informativa e não substitui acompanhamento psicológico ou médico — se o desconforto com a própria imagem estiver afetando significativamente o dia a dia, buscar apoio profissional é um cuidado válido e recomendado.

O direito à reconstrução depois da mastectomia

No Brasil, a Lei nº 12.802/2013 garante às mulheres que passaram por mastectomia em decorrência do tratamento do câncer o direito à cirurgia de reconstrução mamária pelo SUS, incluindo em outra unidade de saúde, se aquela onde foi feita a mastectomia não realizar o procedimento. Esse direito é reforçado por hospitais de referência, como o A.C.Camargo Cancer Center, que orientam pacientes sobre como buscar essa via dentro da rede de saúde.

Vale destacar que a reconstrução não é obrigatória — é uma opção, e a decisão de fazer ou não deve ser exclusivamente da paciente, sem julgamento sobre qual escolha é “mais corajosa” ou “mais correta”.

Cuidados práticos com a cicatriz

Nos primeiros meses, a cicatrização costuma evoluir com orientações específicas da equipe cirúrgica, que pode incluir cuidados com hidratação da pele, proteção solar na região e, em alguns casos, encaminhamento para fisioterapia ou terapias de manejo de cicatriz. Esses cuidados variam conforme o tipo de cirurgia, e por isso devem seguir sempre a orientação de quem realizou o procedimento — não recomendações genéricas encontradas na internet.

Reconstruindo a relação com o próprio corpo

Além do cuidado físico, existe um processo emocional de reaproximação com o próprio corpo, que não segue um prazo fixo. Para algumas pessoas, isso passa por terapia; para outras, por grupos de apoio com pessoas que passaram por situação parecida; para outras ainda, por pequenos gestos, como escolher roupas ou peças íntimas com que se sintam mais confortáveis. Não existe uma forma “certa” de lidar com isso, apenas a que faz sentido para cada pessoa, no seu próprio tempo.

Como parte da equipe que acompanha pacientes fora do consultório médico, tenho visto como o momento de reconstruir a relação com o corpo também tem espaço para o cuidado nutricional: recuperar a cicatrização e a energia passa por uma alimentação adequada ao pós-operatório, sempre orientada por uma nutricionista, e não por dietas restritivas copiadas de fontes não especializadas.

Perguntas frequentes sobre cicatrizes e autoestima após a cirurgia oncológica

É normal sentir vergonha do próprio corpo depois da cirurgia oncológica?

Sim, é uma reação bastante comum, relatada por muitas pessoas que passaram por esse tipo de cirurgia. Reconhecer esse sentimento sem se cobrar por “superá-lo rápido” já é um passo importante no processo de adaptação.

Toda mulher que faz mastectomia tem direito à reconstrução pelo SUS?

A Lei nº 12.802/2013 garante esse direito às mulheres que perderam a mama em decorrência do tratamento oncológico, incluindo o encaminhamento a outra unidade de saúde, se necessário. Detalhes de prazo e elegibilidade devem ser confirmados com a equipe médica e o hospital de referência.

Fazer a reconstrução é obrigatório?

Não. A reconstrução é uma escolha da paciente, não uma obrigação. Algumas optam por não reconstruir, e essa decisão é tão válida quanto a de reconstruir.

Quando devo procurar apoio psicológico para lidar com as mudanças no corpo?

Se o desconforto com a própria imagem estiver causando isolamento, tristeza persistente ou afetando a rotina, vale buscar apoio psicológico. Não é preciso esperar a situação piorar para pedir ajuda.

Um passo possível para hoje

Se as cicatrizes da cirurgia estão pesando neste momento, uma ação possível é escolher uma pessoa de confiança — parceiro, amigo, familiar ou profissional de saúde — para falar abertamente sobre o que você está sentindo em relação ao seu corpo. Nomear o sentimento, mesmo sem resolvê-lo de imediato, já é uma forma de começar a reconstruir essa relação.


Sobre a autora: Gracy Mariano é nutricionista e escreve no Estou Com Câncer para ajudar pacientes, familiares e cuidadores a se sentirem mais informados e menos sozinhos em cada etapa da jornada.

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento com profissionais de saúde qualificados. Converse sempre com sua equipe médica. Atualizado em: 21/09/2026