Se você é homem e passou dos 45 anos, provavelmente já ouviu alguém dizer que é “hora de fazer o PSA”. Essa orientação, repetida por anos em campanhas e consultórios, mudou — e é normal ficar em dúvida quando uma informação que você já conhecia parece ter virado do avesso.
O exame de PSA para câncer de próstata ainda existe e ainda é usado, mas a forma como ele é indicado mudou. Hoje, o Ministério da Saúde e o INCA não recomendam mais que homens sem sintomas façam PSA e toque retal por rotina, como parte de uma convocação em massa. Isso não significa que o exame perdeu valor — significa que a decisão de fazer ou não fazer passou a ser mais individual, conversada caso a caso com o médico.
O que mudou na recomendação sobre o exame de PSA?
Desde 2023, uma nota técnica do Ministério da Saúde e do INCA recomenda contra o rastreamento populacional do câncer de próstata — ou seja, não indica mais que todo homem, sem sintomas, faça PSA e toque retal por rotina, apenas por estar em determinada faixa etária (veja a nota técnica completa em inca.gov.br).
Isso é diferente de dizer que o exame não serve para nada. Homens com sintomas urinários, histórico familiar da doença ou que pedem o exame espontaneamente continuam podendo fazê-lo — a mudança está em não convocar toda a população masculina como se o exame fosse obrigatório por idade, do jeito que acontece, por exemplo, com a mamografia.
Por que o rastreamento em massa deixou de ser recomendado?
A resposta direta: porque o excesso de diagnóstico pode causar mais dano do que benefício. Ampliar o rastreamento aumenta o número de diagnósticos, mas não há evidência clara de que isso reduza a mortalidade específica pela doença, segundo a mesma nota técnica do INCA.
Ao mesmo tempo, o excesso de exames leva a tratamentos desnecessários — muitos tumores de próstata crescem tão devagar que talvez nunca chegassem a causar sintomas ao longo da vida do paciente. Tratar esses casos expõe o homem a riscos reais, como disfunção urinária e sexual, sem necessariamente prolongar sua vida. O Instituto Oncoguia também traz essa explicação de forma acessível em seu material sobre o tema.
Então eu nunca devo fazer o exame de PSA?
Não é isso. A recomendação atual é que homens, principalmente a partir dos 45 anos, busquem avaliação médica para conversar sobre riscos e benefícios do exame — e decidam junto com a equipe de saúde se vale a pena fazer o PSA no caso individual deles.
Essa conversa pesa fatores como histórico familiar de câncer de próstata, sintomas urinários presentes, cor da pele (homens negros têm risco mais elevado, segundo dados do INCA) e as preferências pessoais diante dos riscos de um possível tratamento.
Vale lembrar: este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação do seu médico urologista, que conhece seu histórico completo e pode ajudar a pesar essa decisão com você.
O que perguntar ao médico antes de decidir
Levar essas perguntas para a consulta pode ajudar a tomar uma decisão mais informada:
- Considerando meu histórico familiar e minha idade, qual é o meu risco real?
- Se o PSA vier alterado, quais são os próximos passos e os riscos deles?
- Existe chance de um resultado alterado sem eu ter câncer (falso positivo)?
- Se for encontrado um tumor de crescimento lento, quais opções existem além do tratamento imediato?
- Com que frequência devo reavaliar essa decisão?
Como alguém que acompanha de perto a rotina de quem recebe um diagnóstico oncológico, vejo com frequência a ansiedade que cerca esse tipo de mudança de recomendação — como se a ciência tivesse “voltado atrás”. Não é isso: é o conhecimento avançando e reconhecendo que exame a mais nem sempre é sinônimo de cuidado a mais. Entender essa lógica ajuda a chegar na consulta menos perdido e mais preparado para participar da decisão junto com o médico.
Perguntas frequentes sobre o exame de PSA
O exame de PSA foi cancelado pelo SUS?
Não. O exame continua disponível e pode ser solicitado pelo médico, inclusive pelo SUS, quando houver indicação clínica. O que mudou foi a recomendação de convocar toda a população masculina para fazê-lo por rotina, sem avaliação individual prévia.
A partir de que idade devo conversar com o médico sobre isso?
O Ministério da Saúde e o INCA sugerem que essa conversa comece a partir dos 45 anos, especialmente para homens com fatores de risco, como histórico familiar da doença.
Homens negros têm orientação diferente?
Dados do INCA indicam que homens negros têm risco mais elevado de câncer de próstata e tendem a apresentar a doença em estágios mais avançados, o que reforça a importância de uma conversa individualizada com o médico, ainda que não haja recomendação diferente de rastreamento em massa.
O toque retal também deixou de ser recomendado por rotina?
Sim, segue a mesma lógica do PSA: não é mais indicado como exame de rotina em massa para homens sem sintomas, mas pode fazer parte da avaliação individual feita pelo médico.
Se eu tiver sintomas urinários, preciso esperar até os 45 anos?
Não. Sintomas como dificuldade para urinar, urgência urinária ou sangue na urina merecem avaliação médica em qualquer idade, independentemente da recomendação de rastreamento.
O que fazer com essa informação hoje
Você não precisa decidir isso sozinho nem hoje. O passo possível agora é simples: se você tem 45 anos ou mais, ou tem histórico familiar de câncer de próstata, leve o assunto para a próxima consulta e converse abertamente com seu médico sobre o que faz sentido no seu caso. Essa conversa, mais do que qualquer exame isolado, é o que te coloca no controle da própria saúde.
Sobre a autora: Gracy Mariano é nutricionista e escreve no Estou Com Câncer para ajudar pacientes, familiares e cuidadores a se sentirem mais informados e menos sozinhos em cada etapa da jornada.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento com profissionais de saúde qualificados. Converse sempre com sua equipe médica. Atualizado em: 23/09/2026

